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22/08/2003 17:52

Foi mal, Stalimir, mas a Judith tá errada

Fernando Campos

Vou começar assoprando, pra depois bater. Adoro os artigos do Stalimir. Sério, gosto mesmo. Tenho um índice de confluência de opiniões com ele bem acima da média. Não que seja alguma vantagem, já que adoro ler o Jabor, apesar de concordar apenas com cerca de um terço do que ele fala. Já não é o caso do Diogo Mainardi, com o qual não concordo nem gosto de ler.

Mas o papo é sobre o Stalimir, e o artigo sobre a Judith Mair, uma alemã de Colônia (dona de uma agência que leva seu nome) que tem invadido e-mails publicitários nos últimos dias.

O Stalimir conta que a Judith escreveu um livro falando sobre trabalho e prazer, como um não deve influenciar o outro e como - ainda segundo a colega Judith - é perniciosa a invasão de prazeres e interesses pessoais na vida profissional de uma agência de propaganda. Discordo muito, Stalimir. Muito mesmo. Vou enumerar dois motivos.

Um: você já viu alemão se divertindo? Pense bem no que ela imagina quando fala em abrir mão de se divertir por 10 horas do dia. Pra ela pode ser diferente do que é pra você e pra mim que, estereótipos à parte, nascemos numa sociedade hedonista e risonha - o que funciona como qualidade e defeito, simultaneamente. Mas não importa. Importa é que, no quesito prazer e diversão, a Judith tem mais a perder do que a gente, ainda que se alimente melhor e pague menos juros no cartão de crédito.

Dois: com todo o respeito, desde quando a propaganda alemã virou padrão de qualidade e criatividade (benchmark, como diriam nossos clientes agringalhados)? Vai lá olhar a Wieden & Kennedy pra ver se os caras não se divertem durante o dia. E pergunte a eles se algumas de suas relações pessoais não se estabeleceram porque os caras tinham os mesmos objetivos, estes objetivos eram interessantes e criativos, fazendo com que a relação entre eles tivesse estas mesmas características. Ah, e depois dê uma espiadinha no rolo deles. É de babar de inveja!

Muita calma nesta hora. Depois da redução de pessoal, da redução da taxa, da redução da verba, da redução do prazo, só faltava esta: a redução do pau. Não dá. A gente passa 10 horas por dia, em média, na agência, que chegam a, vá lá, 23 dias por mês. Dá 230 horas. O mês tem 720, das quais a gente passa 240 dormindo. Estamos falando de um corte de prazer em cerca de mais ou menos 50% das horas úteis da vida. Eu to fora.

Abro hoje mesmo uma barraca de peixe numa praia da Bahia, que eu não digo o nome pra não saturar o mercado. Entendo seu ponto sobre a divisão das coisas: elogio prum lado e grana pro outro. Um sábio amigo já dizia, há muito tempo, sempre que recebia um tapinha nas costas: minha parte eu quero em dinheiro. Mas não acho que as duas coisas sejam excludentes. Com o pensamento da Judith, a gente corre o risco é de ficar sem as duas.

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fcampos@fcb.comFernando Campos é diretor de criação da Giovanni FCB e presidente do Clube de Criação do Rio de Janeiro

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