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O artigo "Eu tenho um issue" que o Fernando Campos escreveu nesta coluna me fez pensar sobre essas coisas esquisitas que ouvimos ou dizemos em reuniões.
A primeira vez em que ouvi "Você está confortável com esta idéia?", fui pego completamente de surpresa. Como assim confortável? Moletons, pantufas, cuecas 100% algodão são confortáveis. Mas idéias?! Que negócio era aquele de idéia confortável?
A pergunta foi feita por um gerente de produto ao seu assistente, ou pelo assistente ao atendimento, ou talvez o contrário, não lembro. O que ficou mesmo daquela reunião foi o tal do confortável. A idéia, de tão confortável que era, acabou me fugindo da lembrança. É o mesmo que acontece com as cuecas de algodão, a gente até esquece que está usando.
"Eu tenho um issue. Não estou confortável com esta idéia. Acho que falta branding." Se você ouvir esta frase em sua próxima apresentação, prepare-se para, pelo menos, uma hora de discussão. Falta de branding é um issue dos mais desconfortáveis que existem. É issue com areia. Não dá para resolver com uma argumentaçãozinha qualquer não. É preciso estressar a questão, para alinhar - olha aí mais dois termos - as opiniões até que todo mundo esteja devidamente confortável. Nesses momentos, sempre penso na figura de um estagiário surfistão gritando "Ih! É ruim de não ter branding, hein! Aí, maluco, cê viajou, tá cheião de branding na parada, valeu?". No fundo, me divirto um bocado nesse tipo de reunião.
Outro termo que me diverte: by-passar. Morro de rir com by-passar. Mas by-passar alguém pode dar dor de cabeça. Tem gente que espuma de raiva quando é by-passada. Não sabe o que significa by-passar?! É melhor se ligar: podem estar te by-passando agora, bem debaixo do seu nariz. O mundo dos negócios não perdoa, by-passa.
E os desafios? Qualquer coisa virou motivo pra desafio. "Conto com vocês neste desafio de diminuir uma dobra deste folder." Esse vocês, no corporativês, é team. Eu, por exemplo, faço parte do team criativo da McCann.
"Vamos shootar no sábado?". Não, isso não é convite para um futebolzinho no fim de semana. É fotografar (de shooting). Wake up! Mas shootar não é nada perto de postponar. "Vamos ter de postponar a reunião. O cliente ainda está em São Paulo." É preciso ter muita coragem para falar uma palavra tão incrivelmente desnecessária. Startar o processo, dar um break na reunião, até vai. Mas postponar não pode. Imagina se essa moda pega. "Amor, vamos postponar o motel. Estou menstruada."
Por falar em moda que pega, já presenciei uma verdadeira epidemia de weird. Numa reunião de pré-produção, o diretor do filme chamou a estética apresentada de uma coisa assim meio weird. Na reunião seguinte, de produção, weird era a palavra. Foram falados aproximadamente 15 weird. E, por melhor que seja o inglês das pessoas, weird sempre soa pra mim meio estranho - ops, desculpe! - weird.
"Adorei o anúncio, mas preciso dividir isso internamente." Sei que é maluquice da minha cabeça, mas toda vez que escuto isso não consigo deixar de pensar nos clientes repartindo irmanamente o meu anúncio em pedacinhos, ao som de uma música sacra. Acontece que, algumas vezes, o retorno dessa tal dividida interna é um sonoro "Precisamos de mais opções", que, no final das contas, significa que terei efetivamente de rasgar a idéia em pedacinhos (agora, sem música sacra) e jogar no lixo. Mas isso faz parte do dia-a-dia da nossa profissão. Algumas idéias são aprovadas; outras, não.
O importante é que as pessoas fiquem confortáveis na hora de tomar decisões.
Tenho um projeto para estimular o conforto em apresentações de campanhas. A idéia é substituir as cadeiras da sala de reunião da agência por banheiras de ofurô. Dependendo da importância da apresentação, podemos colocar um massagista de shiatsu ao lado de cada banheira, para agregar valor ao conforto. Estou escrevendo um racional da proposta, que devo estar enviando para a administração da McCann A.S.A.P (As soon as possible) F.Y.M (For your information).
renato_jardim@mccann.com.brRenato Jardim é redator da McCann Rio e diretor do CCRJ