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30/06/2003 16:32

A propaganda e as microcápsulas de hélio

Renato Jardim

Não tenho a menor vocação para golpista, mas confesso que já arquitetei um golpe em parceria com um amigo diretor de arte: o bife de hélio. Consistia numa bolsa de borracha em formato de bife na qual injetaríamos o gás. Nossa idéia era aplicar o golpe em restaurantes a quilo. O bife seria levado no bolso para, discretamente, ser colado no prato (o bife viria com uma fita dupla face na parte de baixo), e com isso o golpista poderia burlar a balança e ganhar um belo desconto no almoço. Mais leve que o ar, o gás hélio do bife impulsionaria o prato para cima, diminuindo o seu peso.
Armamos tudo nos mínimos detalhes. O Marcelo Bittencourt, meu cúmplice, faria o layout do bife (optamos por um contrafilé) e eu entraria em contato com o fabricante daquelas comidas japonesas fake que alguns restaurantes costumam expor.
Desenvolveríamos primeiro um protótipo, que passaria por rigorosos testes de qualidade. Depois de alguns ajustes eventuais, produziríamos o bife em larga escala. Para os vegetarianos, teríamos uma versão de bife de soja. Os camelôs do centro da cidade seriam nosso canal de vendas prioritário. Aqueles caras vendem qualquer coisa. O produto viria com um manual de instrução com dicas importantes como, por exemplo, colar o bife sempre no meio do prato e dispor os alimentos equilibradamente à sua volta, ou nunca deixar o bife para o final — já imaginou que cena ridícula um prato levitando pelo restaurante?
Nós realmente pensamos em tudo. Até mesmo numa desculpa infalível para o caso de alguma denúncia anônima. Garçom: "Senhor, fomos informados a respeito de um bife de hélio nesta mesa". Resposta: "Sim, meu nome é Hélio, este é o meu bife. Algum problema?".
O projeto não foi adiante por motivos éticos. Resolvemos buscar uma utilização mais construtiva para a tecnologia das bolsas de hélio. Algo que fosse mais grandioso, ousado e lucrativo.
A idéia que poderia mudar a minha vida surgiu num sonho. Isso foi há seis anos, no carnaval de Florianópolis. O sonho não deixava dúvidas: eu seria um dos homens mais ricos do mundo. Como? Com as "microcápsulas de hélio". Uma invenção que revolucionaria a indústria da construção civil. O princípio era muito simples: adicionar as microcápsulas de hélio ao concreto para reduzir o peso das estruturas. Assim, uma ponte, por exemplo, poderia ter pilares de sustentação mais finos. Uma economia monumental de armações de aço, concreto, mão-de-obra e tempo. Prédios enormes seriam construídos com o dinheiro que antes só se poderia levantar um pequeno edifício. Isso teria um impacto monstruoso no setor imobiliário e, conseqüentemente, no desenvolvimento das cidades. O futuro seria construído com as microcápsulas de hélio.
Eu e meu sócio, Marcelo, teríamos a patente mais valiosa da história. Bill Gates seria fichinha perto de nós.
No sonho, me via fechando megaoperações comerciais, enviando para todos os cantos do mundo carregamentos de microcápsulas em navios petroleiros. Óbvio que não consegui dormir mais. E precisava dividir a idéia com alguém. Acordei a pobre da minha mulher no meio da madrugada. "Márcia, estamos ricos! Ricos não, arquimilionários!" Estava simplesmente obcecado com a idéia. "Acabei de inventar as microcápsulas de hélio!". E ela só repetia: "Vai dormir, pelo amor de Deus". Mas, diante da minha persistência, acabou ouvindo a história. Pensei em ligar para o Marcelo, mas ela ameaçou separação. Estava excitadíssimo com as microcápsulas de hélio. E a coisa só terminou às 8 da manhã, quando finalmente pude ligar para o meu futuro sócio. O Marcelo é de uma família de engenheiros e já havia cursado arquitetura antes de ser publicitário. Era a pessoa perfeita para analisar o projeto. Ele foi curto e grosso: "Cara, esta é a maior imbecilidade que já ouvi em termos de engenharia. Na boa, esquece esse negócio de hélio. A coisa do bife era só uma piada. E aí, como é que está Floripa?".
É, também não tenho a menor vocação para engenheiro. Mas, de qualquer maneira, a história valeu pelo exercício mental. A viagem na maionese sempre será pra mim uma fonte inesgotável de insights e prazer. É na liberdade inescrupulosa do pensamento que, muitas vezes, encontra-se a saída para os jobs. Minhas melhores idéias nasceram assim. Tudo bem, algumas passaram um pouquinho do ponto, como a do presidente de uma grande rede de supermercados assumindo publicamente o compromisso de vender mais barato, por meio do gesto simbólico de colocar a própria bunda na reta diante das câmeras.
Pensar é grátis. E ter medo de pensar isso ou aquilo, de ter uma idéia imbecil, insana, simplesmente não entra na minha cabeça.
Gostaria de usar este espaço para convocar parceiros para o meu próximo empreendimento com a tecnologia das cápsulas de hélio. Desta vez, tenho certeza que a coisa vai. E aí, Marcelão, tá dentro?

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renato_jardim@mccann.com.brRenato Jardim é redator da McCann-Erickson Rio e diretor do Clube de Criação do Rio de Janeiro

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