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27/09/2002 22:31

Festivais: o joio e o trigo

Fernando Campos

Outro dia, recebi um telefonema de uma espanhola desconhecida cobrando-me inscrições no Dolfín de Oro, segundo ela, um dos prêmios de propaganda mais importantes da Ibero-América. Achei que era sacanagem. Não era. Comentei o fato com a Yasmin, assistente da criação, responsável pela inscrição em festivais, e ela não demonstrou um pingo de surpresa. Contou-me, em tom quase resignado, que sua vida tem, nos últimos meses, se resumido a uma interminável fila de festivais de propaganda. E me fez uma pergunta simples, como todas as boas perguntas são: “Fernando, precisa mesmo desta quantidade de festivais?”.
Precisar, não precisa, Yasmin. Mas eles existem, e por diferentes razões: 1) para promover a qualidade criativa das peças veiculadas em um meio de comunicação específico; 2) para produzir um livro que servirá como fonte de consulta a atuais e futuras gerações de criativos; 3) para medir a performance de cada agência, regional e globalmente. Ou, simplesmente, porque montar um festival é, comprovadamente, um puta negócio.
Tirando a última razão, que pode ser consideravelmente legítima pra quem organiza, mas não necessariamente pra quem inscreve peças num festival, todas as outras fazem algum sentido e, uma vez decidido que sua agência vai participar de festivais, devem ser apreciadas. Feito isto, chega a hora de separar, em cada uma dessas categorias, o joio do trigo.
Não é difícil escolher prêmios na primeira categoria. São poucos, e com considerável credibilidade, até porque nestes a questão dos fantasmas está descartada de cara. Vale, obviamente, citar o Profissionais do Ano, o Prêmio Abril e o Prêmio Globo, que trazem a responsabilidade das empresas que os promovem.
A segunda categoria pode ser coberta com apenas um festival, se você trabalha em um mercado com um Clube de Criação ativo, como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Brasília, só pra citar alguns exemplos nacionais.
Os anuários têm a vantagem de ser um prêmio feito por criativos para criativos, o que garante um número maior de conflitos e, por isso mesmo, algum equilíbrio na disputa de interesses. Além disso, são documentos históricos valiosos, dos quais eu — e qualquer criativo — gostaria sempre de participar. Têm meu voto.
Chegamos na terceira e mais complexa categoria: a da competição pura e simples. Aí entra um monte de gente. Da Sawa ao Dolfín de Oro vale tudo. Os americanos foram inteligentes e criaram o One Show, um festival com uma puta credibilidade e que reforça o mercado deles não só criativamente, mas como negócio. Mais do que um prêmio, é proteção e valorização de um mercado nacional de propaganda. Assim, na hora do júri em Cannes (ou no Dolfín), vale o argumento “Isto aí entrou no One Show”. Carteirada pura e simples.
Temos aqui a chance de fazer o mesmo, fortalecendo o Festival da ABP. É o mais completo, abrangente e mais representativo da propaganda brasileira. Mais do que competição, o Festival do Rio (que é o novo e charmoso nome do Festival da ABP) é um festival no verdadeiro sentido da palavra, com eventos para estudantes, palestras muitas vezes memoráveis e encontros entre quem decide pra onde vai a propaganda brasileira.
Fazer esta percepção romper a barreira dos quatro dias de festival e chegar, por exemplo, ao júri de Cannes (ou do Dolfín), depende de nós. Depende de você pegar o telefone, ligar pro Armando ou pro Jairo e dar força, criticar, apoiar, sugerir, reclamar. Enfim, participar. Depende da gente entender que o Festival do Rio pode virar nosso One Show.

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