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APROSOM

04/09/2003 15:54

Papel com som

Thomas Roth

Cedo ou tarde, vou conseguir. Eu sei que, por enquanto, é mera utopia. Mas tá tudo evoluindo tão depressa que hoje mal tomamos conhecimento de uma invenção ou descoberta e ela já caducou. A informação é rápida, mas parece que a mudança é mais ainda. Você descobre que existe um palm com infravermelho pra conectar com o seu laptop. Quando você vai comprar, ele já se transformou também em celular. Depois em máquina fotográfica, filmadora, daí em tradutor simultâneo; daqui a pouco, você vai usar o palm para "teletransporte"; e, definitivamente, a ponte aérea será apenas uma lembrança romântica.

- Lembra quando a gente viajava de avião? Levava horas...

Bom, estou dizendo que ainda vou conseguir porque, pelo que eu saiba, não inventaram a folha de papel que, ao ser tocada com as pontas dos dedos, execute uma canção, um jingle, uma trilha sonora. Não seria bacana? A trilha sonora do meu artigo! Aliás, melhor ainda: já que estamos - por enquanto - na era da interatividade, poderia vir com menu, oferecendo opções de ritmo, instrumentos, volume, até de mix. O leitor poderia desligar, caso quisesse apenas ler. Poderia fazer a sua própria mixagem. Poderia diminuir ou atenuar os acordes mais "gritantes".

Ao escrever, eu poderia, através da música, expressar tudo aquilo que não posso com palavras. Seria muito engraçado. Eu receberia aquele e-mail dizendo:

- Nossa! Thomas... Como você foi irônico! Aquele texto todo meiguinho, mas aquela "diminuta com 7ª maior", com aqueles "megabits", a guitarra distorcida e os "scratchs", ficou agressivo. O que foi? Já sei! Alguma produtora de cinema embutiu a trilha sonora no seu orçamento, ficou de te pagar e não te pagou, não é?

Ou, eu poderia, num determinado ponto, simplesmente fazer uma pausa na trilha, usar o silêncio pra dar mais ênfase ao texto. E, então, receberia algum e-mail dizendo:

- Thomas, entendi: você tá chateado porque fez um monte de provas de jingle, spots e animatics pra ajudar alguma agência a ganhar uma conta; a agência ganhou e, na hora de fazer os trabalhos, não chamaram você, mas um concorrente, não é?

Chateado? Eu? Imagina. No meio publicitário isso é absolutamente normal. É democrático. Tem a ver com os novos ventos que estamos respirando no País. Justiça social. Redistribuição. Uma produtora faz os prospects, a outra faz os definitivos.

Teria outras vantagens. Eu poderia colocar no artigo a trilha que bem entendesse, sem ter de ouvir aquelas célebres frases:

- Eu não sei o que que é, mas acho que tá faltando alguma coisa...

- Ah, eu pensei numa trilha mais... azul.

Ou:

- Sabe aquele som de pôr-do-sol?

Outra vantagem: eu não teria de me expor à concorrência de preços promovida por alguns clientes e agências, que na verdade são leilões do tipo: "Matem-se!". Sim, porque nem sempre é feita com empresas do mesmo porte, do mesmo nível. Sempre tem uma terceira empresa, que é sabidamente inferior. Especialmente no preço. O problema é que todo mundo sabe que a qualidade dela também é inferior. Na verdade, querem trabalhar com você e te pagar o preço dela!

Mas não há de ser nada. Eu sei esperar! Até o dia em que inventarem a folha de papel com som. Daí eu vou poder colocar nos artigos tudo aquilo que eu penso. Por enquanto, é mais prudente eu "jogar o jogo". Afinal, quem paga as minhas contas?

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