Portal da Propaganda www.portaldapropaganda.comCuriosa a natureza humana: se um mortal qualquer tem uma conduta de vida cuja marca mais visível é a defesa retilínea e irredutível dos seus valores éticos e morais, aqueles que dizem respeito às suas posturas em relação ao mundo, à humanidade, certamente construirá uma imagem sólida. Será apontado como "uma pessoa de personalidade, caráter". Como se houvesse alguém sem personalidade ou caráter. (Mesmo sendo mau-caráter, a pessoa continua tendo. Mas como é assim que todo mundo fala, vamos em frente.) Isso no atacado! Porque no varejo, no dia-a-dia, principalmente no nosso Planeta Propaganda, a coisa é bem diferente. O que lá fora seria chamado de "retidão", aqui dentro é "inflexibilidade". Lá fora, "firmeza"; cá dentro, "intransigência". Lá, quando se demora para dizer "sim", porque se quer analisar com calma e profundidade as propostas, se é "ponderado". Aqui, "complicado".
É quase engraçado. O brasileiro, particularmente, tem essa... peculiaridade. Quando se vê na posição de vendedor, seu produto é o "melhor do mundo e o preço está pra lá de barato". Na verdade, ele é quase um doador. Filantropo. Quando ele é o comprador, o produto passa a não ser tão bom assim. Diz que está "se oferecendo para comprar", num nobre gesto humanitário.
— É mais pra ajudar um amigo. Mas espera aí! Por esse preço, nem pensar!
No nosso mundo, a coisa é assim: na ponta de lá, o cliente é espremido pelo consumidor que não quer (ou não pode) pagar o preço. Ainda assim, ou você paga, ou você não leva. O cliente, é bem verdade, também é espremido até pelo distribuidor, pelo PDV, que hoje cobra inclusive o espaço na prateleira.
Aí, claro, ele chega na agência e já diz que "está caro", antes mesmo de ter solicitado o orçamento.
A agência, por sua vez, diz à produtora do filme — verbas de veiculação à parte — que tem um "budget apertado" (pra ser mais elegante). Que novidade! Ultimamente, o que mais se vê é gente com o "budget apertado", medo de perder o emprego, o cliente, o job.
Alguém da produtora do filme pergunta, já no meio da reunião de produção:
— E a produtora de som?
— Mas não tinha ficado por conta de vocês? Achei que estava dentro do seu budget.
— Dentro do meu budget? Ai, meu Deus do céu...
Assim, como tem de arder no budget de alguém, chamam um produtor de áudio para ser parceiro. Que, evidentemente, nesta altura do campeonato não terá participado da reunião de pré, nem de produção. Aliás, falando em parceiro, campeonato, sabiam o que diz o "Aurélio"? "Parceiro: pessoa com quem se joga." Finalmente eu entendi.
Mas, pra não desviar do foco, acho que a situação acima é falta de criatividade e de senso de oportunidade dos próprios produtores. Não existem os "advogados de porta de cadeia?" Da mesma forma, os "trilheiros" deveriam ter um funcionário na porta de cada produtora de filme, de cada agência e de cada finalizadora. Parado, esperando, pronto pra virar "parceiro". Tenho certeza de que os negócios podem crescer significativamente. Porque, além de você ter a oportunidade de aparecer justo num desses momentos de "lembrança" da produtora de som, existem outras situações que podem propiciar uma abertura. Aquele filme — inicialmente previsto sem trilha — pode vir a necessitar de uma. Já pensou? Um representante seu aparecer, como num passe de mágica, na hora exata? Você não só vai pegar esse job como ele já estará semi-aprovado. E se você aparecer no momento em que o cliente, a agência ou o diretor do filme recusarem pela milésima vez o trabalho de um concorrente? Aí, então, é a glória! Porque você pode oferecer — já que o concorrente está "praticamente morto" — não apenas os seus serviços, mas, se necessário for, de graça. Porque o concorrente já tinha sido pago. E como você é um bom "parceiro"... Tá certo que você vai ficar mais duro que nunca. Mas a sua imagem vai ficar ótima!
E se, em lugar de chamarem você, chamarem outro? E se as trilhas recusadas forem as suas?
— É óbvio, o cliente não tem autonomia pra decidir. É medroso. Além disso, você viu a cor da meia dele? Como é que ele pode entender de propaganda? Quanto mais de trilha...
— E o redator da agência? Você viu a bobagem que ele disse? É patético! Redator que não sabe falar português! Fora o desodorante vencido…— E como é que o diretor do filme fala que também não gostou da trilha, se ficou igualzinha à referência que ele mesmo sugeriu?!?!
É ... Curiosa a natureza humana.
luanova@luanova.com.brThomas Roth é diretor-geral da Lua Nova e membro da diretoria da Aprosom