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APROSOM

27/09/2002 23:23

Copa, Cannes e eleição

Thomas Roth



Quando chega a época de Cannes, sempre rola um frisson. Em ano de Copa, então, nem se fala. Junte-se a isso eleição presidencial, os espíritos se acendem e as discussões fervem.

- O Brasil tá muito melhor que a Argentina!

– Imagina, eles não perderam um jogo desde as eliminatórias!

– Eu tô falando de Cannes, pô!

– Em compensação, a França decepcionou...

– Ah! Eles sempre foram mal em Cannes.

– Cara, eu tô falando da Copa!

Papo vai, papo vem e alguém ressuscita a eterna discussão das peças fantasmas:

– Eu acho que não devia valer. Só as veiculadas...

– Que diferença faz? O que importa não são as idéias?

– Eu sei. Mas é que nem o Lula.

– O Lula? Que é que tem a ver?

– Como é que ele pode querer ser presidente, se nunca foi vereador, prefeito,
governador...

– Que diferença faz? O que importa não são as idéias?

– Eu sei, mas pra mim ele é um “candidato fantasma”.

– Ah! Deixa pra lá...

Por um instante me desligo, viajando ao som das conversas. Penso nos jingles dos candidatos. Acho tudo muito antigo, manjado, careta. Tenho a sensação de que o povo nem ouve mais esse blablablá de sempre: “...honesto, trabalhador...” Ou, se ouve, não entende se é virtude ou sacanagem. Afinal, num país com milhões e milhões de desempregados, um cara se comunicar cantando que é trabalhador parece, no mínimo, provocação.

Da eleição vou pra Copa. E enquanto no mundo lá fora meus parceiros publicitários continuam seus acalorados debates, na minha cabeça soam alguns clássicos: “A taça do mundo é nossa, com brasileiro não há quem possa...”, “Noventa milhões em ação, pra frente Brasil...” Fico tentando imaginar por que, depois de 70, nenhum jingle de futebol ficou tão fortemente guardado. Será que os criadores pioraram? A mídia antes era mais concentrada e hoje em dia está tudo pulverizado? Ou será que é o nosso sentimento que mudou?

Alguém na mesa comenta sobre um filme maravilhoso; forte candidato a Leão em Cannes. Não tem uma locução, um ruído, uma música. Nada! Tremo na base. Acho que por instinto de sobrevivência, minha cabeça imediatamente se enche de “clássicos”, todos com som. Ou uma supertrilha, ou uma mera “gag”. Mas com som! “Bud-Weiser, Bud-Weiser”, “get up!”.

Aliás, outro dia, não é que minha empregada vem me perguntar: “Seu Thomas, o sinhô que mexe com esse negócio de reclame, podia me explicá u’a coisa? Por que que aquele moço tá varrendo a rua cantando “Garapa... garapa...?”

Volto à conversa da mesa e alguém diz:

– É, acho que este ano os holandeses vão surpreender.

– Mas como? Eles nem estão na Copa!

– Eu tô falando de Cannes!

Aí aparece alguém e diz que a Argentina perdeu pra Inglaterra. De novo a cabeça gira num turbilhão de pensamentos, como um clipe irado:

Flash 1 – “Ôba!”

Flash 2 – “Na verdade eu queria que os dois perdessem!”

Flash 3 – “O que será que é melhor pra gente? Que a Argentina ganhe? Que a Inglaterra ganhe?”

Flash 4 – E em Cannes?

Flash 5 – E na política? Será que é bom a Argentina ir pro buraco de vez? Será que a gente vai junto? O Lula ou o Serra?

Flashes 6, 7, 8, 9... – Socorro!!! Parem o mundo que eu quero descer. E, de preferência, numa prainha deserta, num planeta qualquer. Sem política, sem futebol, sem propaganda. Tá bom, tá bom, sem música também. Só o barulhinho do vento, do mar, das gaivotas...

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luanova@luanova.com.brThomas Roth é cacique da tribo da Lua Nova e membro da diretoria da Aprosom

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