Portal da Propaganda www.portaldapropaganda.comAntes mesmo de seu lançamento oficial, Harry Potter e o Príncipe Mestiço, sexto livro da genial série escrita pela inglesa Joanne K. Rowling, já havia vendido cerca de um milhão de exemplares, apenas na livraria Barnes & Noble, nos Estados Unidos. O livro estabelece um recorde: tem a maior primeira edição literária já registrada em todos os tempos, com 10,8 milhões de unidades impressas, conforme revela sua editora norte-americana, a Scholastic.
Os livros do bruxo adolescente e bom caráter são vendidos em praticamente todos os países e traduzidos para 60 idiomas, já tendo registrado vendas próximas de 300 milhões de exemplares. Tais volumes são impressionantes para um Brasil em que se registra média de compra inferior a um livro por habitante/ano, conforme se pode concluir em pesquisa do Ministério da Cultura, divulgada em março último, sobre as perspectivas do mercado editorial e livreiro em 2005. As editoras estimam a venda de 178 milhões de exemplares, cuja divisão pelos 180 milhões de habitantes registrados pelo IBGE resulta em assustador dado per capita: 0,98. Este índice nacional de leitura é inferior ao de países da própria América Latina e muito menor do que o verificado em nações como Estados Unidos, França e Alemanha, onde a relação é superior a sete por um.
Nos números da pesquisa do Ministério da Cultura não se incluem os cerca de 100 milhões de exemplares adquiridos todos os anos pelo Governo Federal, no âmbito do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD). Considerando esse volume, distribuído nas escolas públicas do Ensino Fundamental para alunos de baixa renda, o índice nacional de leitura seria de aproximadamente 1,5 livro por habitante ano, ainda muito aquém da necessidade inadiável de democratizar a leitura e abaixo das médias em nações concorrentes na economia global.
No nicho de compras espontâneas, Harry Potter também exerce influência no Brasil. Os livreiros, embora não haja pesquisa específica sobre isso, reconhecem a importância do bruxinho, assim como do Senhor dos Anéis, de J.R.R. Tolkien, que vendeu 100 milhões de exemplares em todo o mundo, para o estímulo à leitura no grupo de crianças e jovens.
Para o País, não importa se movida pelas mágicas penas de Rowling e Tolkien ou pelo PNLD, é fundamental a formação de novas e subseqüentes gerações de leitores. O apego ao conhecimento, à cultura e ao entretenimento literário, que, como comprovam Potter e o Senhor dos Anéis, ainda tem no livro a sua mais importante e insubstituível mídia, é a principal herança que pais, governo e sociedade podem deixar à infância e à adolescência desta nação. Assim, é lamentável constatar que, devido à péssima distribuição de renda, ao desemprego elevado e à eterna incerteza quanto ao futuro próximo da economia, o livro seja um produto supérfluo para milhões de brasileiros. Estes habitantes poderiam desfrutar condições de vida muito melhores, vislumbrar possibilidades profissionais mais promissoras e exercitar mais plenamente as prerrogativas do civismo, se não tivessem de optar entre a compra de um quilo de alimentos e uma obra literária ou didática.
Esta realidade está evidenciada em números de inédita pesquisa realizada pelo Instituto de Estudos e Marketing Industrial para a Associação Brasileira da Indústria Gráfica. O trabalho demonstra, dentre outros itens, que, nos últimos quatro anos, a receita da indústria gráfica referente à impressão de livros manteve-se praticamente inalterada. São impressos, em cerca de 178 gráficas comerciais que se dedicam a esse mercado, 238 milhões de exemplares/ano. Para o futuro imediato, os empresários entrevistados mostram-se bastante cautelosos, prevendo crescimento da impressão, em 2005, de apenas 2%.
Numa perspectiva de cinco anos, metade dos entrevistados espera que o mercado cresça à média anual de 6,2%. Os demais demonstram menos otimismo. A crença no aumento dos volumes de impressão, embora a pesquisa não deixe isso claro, está muito ligada às perspectivas de que o governo amplie o Programa Nacional do Livro Didático para o Ensino Médio. Isto, além de absolutamente necessário, complementa o programa, atendendo à nova geração de leitores criada por sua implementação anterior no Ensino Fundamental.
E quanto à parcela de pessimismo que afeta os empresários gráficos? Ora, não há necessidade de qualquer pesquisa para identificar as causas. São as de sempre, ou seja, as que permeiam o círculo vicioso dos juros altos, impostos escorchantes e ilimitados, dívida pública crescente, falta de crédito para investimentos, câmbio irreal e, o que é pior, a quebra de credibilidade do governo devido a denúncias de corrupção. A magia de Harry Potter ajudou bastante no estímulo à literatura infanto-juvenil e tem garantido a impressão de alguns milhares de livros pelas gráficas brasileiras. No entanto, as empresas do segmento, como todos os setores produtivos do País, precisam de algo muito maior: exorcizar a mesmice, o pensar pequeno e as teses anacrônicas que emperram a economia nacional.
Um desafio muito mais árduo e insólito do que a luta do simpático bruxinho inglês contra Valdemort, o lorde do mal. Alerta: qualquer semelhança com pessoas ou situações da vida real é mera coincidência...
mcesar@abigraf.org.brMário César de Camargo é presidente da Abigraf – Associação Brasileira da Indústria Gráfica