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ABIGRAF

30/05/2003 17:21

Responsabilidade social

Silvio Roberto Isola

A transição do modelo da sociedade industrial do século 20 para o da sociedade pós-industrial — e teoricamente mais feliz — do século 21 está extremamente morosa, conturbada e onerosa, nos planos econômico e social, para a absoluta maioria dos países. Os organismos internacionais, inclusive os multilaterais de crédito, que detêm estatísticas e informações macroeconômicas muito próximas da realidade, identificam o empobrecimento das nações emergentes e subdesenvolvidas, a concentração crescente da renda e a queda, em muitos países, do chamado IDH – Índice de Desenvolvimento Humano, medido pela ONU.
Em termos de política e diplomacia, o início da nova era também tem sido desastroso. O recrudescimento da violência no Oriente Médio, a guerra no Iraque, as ameaças de conflito com a Coréia do Norte e a mobilização militar cada vez mais tensa entre Índia e Paquistão denunciam a onda de instabilidade internacional. Algo está errado. A globalização permite que um clique num computador da Malásia provoque uma crise de liquidez na economia argentina ou que o anúncio, à noite, da descoberta de um novo lençol petrolífero no Brasil já reflita, simultaneamente, nas bolsas asiáticas. No entanto, não se encontram soluções para vencer o desemprego, para o crescimento contínuo e sustentado do nível de atividades e para o desenvolvimento econômico e social.
Sem a ousadia de propor um teorema sociológico, tudo indica que se privilegiou de forma exagerada o material, desprezando-se quase totalmente o humano, o social. Claro que a prosperidade econômica é imprescindível à paz e à harmonia social. Entretanto, não pode ser construída sem uma relação de equilíbrio e em meio à exagerada exclusão. O mundo entendeu a lição do neoliberalismo, importante para a prosperidade, mas deu as costas às recomendações e tratados da Eco 92, a conferência mundial da ONU que, há 11 anos, realizou-se no Rio de Janeiro.
Nem mesmo o referendo a essas recomendações, na Conferência Rio+10, realizada em 2002, na África do Sul, parece ter sido suficiente para sensibilizar os governos. Com raras e honrosas exceções, os Estados continuam muito alheios a acordos como o Protocolo de Kioto, a Agenda 21, o Tratado das Florestas e o processo de erradicação da miséria, fundamentais ao florescimento de um novo padrão mundial de paz, crescimento sustentado e desenvolvimento.
Felizmente, no vácuo deixado pelos Estados e, em alguns casos, numa ação intercomplementar às dos governos, surge a mão da iniciativa privada, cada vez mais consciente de sua responsabilidade social. O terceiro setor — que reúne todas as empresas, ONGs, fundações, institutos e entidades de direito privado que realizam ações públicas, visando ao bem comum — avança em todo o mundo. E sua contribuição tem sido muito significativa.
Aqui no Brasil, por exemplo, somente os 48 associados do Gife – Grupo de Institutos, Fundações e Empresas, entidade que congrega os maiores atores nacionais do terceiro setor, aplicaram R$ 1,65 bilhão, entre 1997 e 2000, na área social. Outro indicador importante: os negócios relativos à preservação ambiental crescem na faixa de 20% a 50% ao ano no País. Os clientes que predominam nesse mercado são empresas industriais, cada vez mais preocupadas em evitar que sua atividade polua o ambiente e agrida as comunidades nas quais estão inseridas.
Mais do que nunca, as entidades de classe, assim como as empresas que representam, também devem participar desse esforço no âmbito do terceiro setor. Um exemplo é o Projeto de Responsabilidade Social na Indústria Gráfica, desenvolvido pelo Sistema Abigraf, com a coordenação do Sindigraf - Sindicato das Indústrias Gráficas no Estado de São Paulo. O plano engloba três políticas: ambiental (com o recente lançamento do Guia Técnico Ambiental da Indústria Gráfica e do projeto de Coleta Seletiva de Lixo), social e gestão de recursos humanos.
Fica cada vez mais claro que a responsabilidade social crescente da iniciativa privada tem contribuído muito e indicado claros caminhos à humanidade. Nesse contexto, seria fundamental que as grandes empresas e corporações transnacionais, cada vez mais cosmopolitas, também pudessem influenciar governos a reduzir subsídios, barreiras alfandegárias e não-tributárias, removendo obstáculos à exportação dos produtos, bens industrializados e commodities das nações emergentes. Essa postura seria um passo auspicioso para estabelecer mais equilíbrio no comércio internacional, fator decisivo para a redução das disparidades e prevalência de um senso universal de justiça.

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srisola@ggraf.com.br Silvio Roberto Isola é presidente do Sindigraf - Sindicato das Indústrias Gráficas no Estado de São Paulo

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