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ABIGRAF

07/05/2003 19:07

Do discurso à prática

Alfried Karl Plöger

O Governo Lula, depois de fugaz lua-de-mel com o poder, começa a sentir o peso das responsabilidades de dirigir um país com as dimensões e os problemas do Brasil. Rapidamente, o presidente Luiz Inácio, ministros e as mentes mais lúcidas de seu partido, o PT, percebem que entre a confortável postura crítica da oposição e o exercício administrativo há um imenso abismo.
Um dos sintomas de que Lula assimilou muito bem essa percepção foi a recente assunção pública do governo de que o PT errou ao não apoiar algumas propostas do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em especial as relativas às reformas tão reclamadas pela sociedade. Ato contínuo, o presidente declarou com firmeza à imprensa que a reforma da Previdência será votada até princípios do segundo semestre e a tributária, logo em seguida. Mesmo que as mensagens tenham o pano de fundo do conteúdo retórico, o governo deu o seu recado aos partidos de oposição: não cometam os mesmos erros políticos que nós, pois todos perdem, principalmente a sociedade.
A postura e as mensagens do atual governo parecem estar apresentando resultados práticos, à medida que o ceticismo internacional recua, o risco-Brasil diminui e o câmbio vai se comportando de maneira menos assustadora. Essas tendências são confirmadas pela recente declaração do diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional, Horst Köhler. Ele elogiou a democracia no Brasil e o Governo Lula, reiterando o apoio do FMI para que o País cresça, sem abandonar o combate à desigualdade social.
De fato, o Governo Lula está surpreendendo positivamente até mesmo os mais céticos críticos do PT. No episódio da explosão de violência no Rio de Janeiro, agiu com rigor muito maior do que vinha fazendo seu antecessor, não hesitando em lançar mão de sua autoridade, dentro dos limites legais impostos pela Constituição, para colocar o exército nas ruas em proteção à sociedade. As posições do governo também têm sido firmes quanto às insensatas invasões de terras praticadas pelo MST.
No plano econômico, vêm sendo mantidas as estratégias de rígido controle fiscal, com mecanismos aplicados no governo anterior. É neste aspecto que reside o maior desafio do Governo Lula. Até aqui, está tudo muito bem. Afinal, num cenário de instabilidade internacional, com mais uma guerra e a retração dos mercados, a economia brasileira vai colecionando elogios do FMI e de outros organismos multilaterais de crédito.
O governo, porém, tem consciência de que a percepção da realidade pelos empresários e trabalhadores vai muito além do discurso e da diplomacia econômica no universo financeiro internacional. A realidade é de clara retração. O diagnóstico é óbvio: a economia mundial está num período recessivo. Essa infecção global atinge com maior virulência países que, como o Brasil, têm dívida elevada, são muito dependentes da poupança externa e cuja legislação econômica arcaica dificulta o processo de desoneração da produção e, portanto, o crescimento sustentado do nível de atividades.
Por isso, o Governo Lula tem salientado tanto a necessidade das reformas. Sabe que é essencial, nesse campo, passar do discurso à prática, pois o Brasil não pode subsistir com uma política econômica gerida apenas pelo controle da inflação. Precisa crescer e construir uma economia forte, próspera, geradora de empregos e riquezas. Assim, não pode mais postergar as reformas da Previdência (cujo déficit anual supera a R$ 70 bilhões), tributária (nos últimos dez anos, os impostos subiram de 19% para 36% do PIB), trabalhista e política.
Caso o novo arcabouço legal não seja votado até o próximo ano, não é preciso ser grande analista ou vidente para vaticinar uma nova onda de descrença e esvaziamento do discurso do governo. A sociedade espera — e muito — que desta vez prevaleçam o patriotismo e a responsabilidade dos parlamentares e ocupantes do Executivo. Revanchismo político e mais um adiamento das reformas em função do calendário eleitoral seriam inaceitáveis, pois poderiam representar o golpe de misericórdia na economia brasileira.

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presiar@abigraf.org.brAlfried Karl Plöger é presidente da Abigraf São Paulo e da Associação Brasileira de Companhias Abertas

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