Portal da Propaganda www.portaldapropaganda.comEmbora sejam muito positivas, a queda do dólar e do risco-Brasil e as fortes evidências de que o mercado internacional vence o ceticismo com relação ao Governo Lula não devem ser pretextos para se manter uma política econômica recessiva. Não devemos esquecer que, ao aumentar ainda mais aqueles que já eram os juros mais altos do mundo e reduzir a liquidez da economia a um patamar quase insustentável, o novo governo protagonizou, na última reunião do Copom, em 19 de fevereiro, o roteiro de um velho e desgastado filme. Repetem-se, em dois meses, os equívocos dos oito anos da gestão econômica do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
Mudou-se o partido instalado no poder, alteraram-se os ministros e gestores da economia. Assim, a sociedade espera que a filosofia meramente monetarista não seja um ente indestrutível, soberano e imutável. Não é sem razão que — no mesmo país, na mesma conjuntura histórica e na mesma economia — indústria/comércio e setor financeiro tenham experimentado performances diametralmente opostas no ano de 2002. Dificuldades, estagnação e números mais do que modestos para os primeiros; prosperidade, crescimento e até alguns recordes de resultados para os segundos.
Nada, absolutamente, contra o sistema financeiro, cuja saúde, rentabilidade e liquidez são fundamentais para toda a economia. Entretanto, o ser humano não come dinheiro, não veste dinheiro. Desde o advento da vida, sua sobrevivência depende da produção; e desde o advento da vida inteligente, da produção e das trocas equilibradas na economia. O dinheiro é o meio de pagamentos, o parâmetro de valores, o financiamento civilizado às atividades produtivas. Não pode, em qualquer hipótese, ser o fim prioritário de uma economia.
Assim, o monetarismo exacerbado não deve matar os agentes econômicos, aqueles que produzem, trabalham, geram riquezas e garantem a sobrevivência. No mundo primitivo, quando havia um colapso natural da produção, as pessoas não sobreviviam; no mundo contemporâneo, os colapsos da produção, suscitados por medidas artificiais e, muitas vezes, por políticas econômicas com superlativa visão monetarista, praticamente ceifam o direito de empresas e trabalhadores ao crescimento sustentado e a um ambiente socioeconômico mais estimulante e saudável.
O Governo Lula, independentemente de questões ideológicas, iniciou-se sob o apoio de praticamente todos os segmentos da sociedade brasileira, incluindo a classe empresarial, que substituiu o histórico ceticismo com relação ao PT por um discurso de confiança. Como está apenas no início, o atual governo tem tudo para não repetir os equívocos de políticas econômicas que, paulatinamente, foram sufocando a produção e provocando a estagnação do PIB brasileiro.
Fator condicionante para se vencer os desafios é a realização, sem mais demora, das reformas tributária, previdenciária e trabalhista, além da política, para que práticas anacrônicas e nem sempre éticas deixem de interferir em decisões cruciais sobre o arcabouço legal do País. Este é o compromisso inadiável e essencial para que o Governo Lula não fique mais quatro ou oito anos patinando na mesmice dos juros altos, da baixa liquidez da economia e de redundantes acordos, em especial com o FMI, para evitar uma catástrofe no balanço de pagamentos, que seria o golpe fatal em nossa economia. Ainda é tempo, presidente, ainda é tempo...
mcesar@grafbandeirantes.com.brMário César de Camargo é diretor comercial da Gráfica Bandeirantes e presidente da Abigraf