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ABIGRAF

27/09/2002 23:12

Sonhos impressos

Mário César de Camargo

O escritório, numa pequena rua da Vila Madalena, em São Paulo, é recheado de livros. Livros e idéias. Idéias e ideais persistentes. É noite, mas dois computadores, com as telas acesas, denunciam: aqui se escreve muito. E basta ler um parágrafo para reconhecer a dignidade da pena de Alberto Dines, jornalista. No aconchego informal daquele espaço, ele — que deixou sua marca em tantos jornais e revistas — continua produzindo textos primorosos, exercitando uma fé indefectível: “Acredito na palavra impressa”.
Este é o trecho do encarte especial da Revista Abigraf, produzido em 1998, sobre a história da imprensa brasileira. E, claro, num trabalho dessa natureza seria indispensável o depoimento de Dines que, ao professar sua crença na palavra impressa, praticamente antecipava em três anos o resultado de pesquisa, divulgada em 2001, do maior fabricante mundial de máquinas gráficas: a mídia impressa representa 70% da comunicação no mundo. Só em 2010 será superada pela eletrônica, numa proporção equilibrada (49%, contra 51%). Porém, com o crescimento da demanda, o mercado gráfico, em números absolutos, será muito maior do que hoje.
Esses dados justificam plenamente o fato de o germânico Johannes Gutenberg ter-se destacado, em todas as antologias do segundo milênio, como um dos mais importantes personagens da história. A partir de 1455, quando inventou os tipos móveis e imprimiu o primeiro livro — uma bíblia —, o mundo nunca mais foi o mesmo. A força da comunicação gráfica como difusora de informação e, portanto, como agente de transformações, foi demonstrada ato contínuo à criação dos tipos móveis. Na época, a Europa tinha cerca de 50 milhões de habitantes, dos quais apenas 8 milhões sabiam ler, embora com pouca freqüência conseguissem livros, raros e caros, pois eram manuscritos e praticamente restritos às bibliotecas dos mosteiros. Muito rapidamente, contudo, o aumento da oferta, devido à imprensa, incentivou o hábito da leitura. Apenas dois anos após a venda, numa feira em Frankfurt, das 200 bíblias impressas por Gutenberg, o número de europeus alfabetizados já chegava a quase 20 milhões.
Hoje, na Alemanha, para uma população de 82,2 milhões de habitantes, são produzidos 424 milhões de exemplares de livros, média de 6,3 volumes por habitante ao ano; na França, são sete livros por habitante/ano e na Itália, cinco (fontes: CBL/ Cerlalc/Unesco e Sindicato dos Editores da França e Itália). Nos Estados Unidos, são 2,2 bilhões de exemplares vendidos anualmente (fonte: “Book Report”/The Christian Science Monitor), para uma população de 276,2 milhões, com média de 8,2 livros por habitante/ano. Fica claro que o desenvolvimento econômico é consentâneo com o acesso à educação, à informação e à cultura, cuja difusão é vocação milenar das artes gráficas.
Os estudos e pesquisas demonstram que, em termos mundiais, a comunicação gráfica continua avançando e sendo decisiva para a disseminação e democratização do conhecimento. No Brasil, contudo, a média atual é de 2,3 livros por habitante/ano. E há que se considerar, nesse índice, a contribuição dos mais de 100 milhões de exemplares anuais do PNLD - Programa Nacional do Livro Didático. O exemplo do segmento editorial demonstra que, como numerosos ramos industriais, o setor gráfico tem trabalhado muito abaixo de sua capacidade instalada, em função de mais uma crise nacional, ou pior, em decorrência das sucessivas dificuldades que impedem o avanço normal de nossa economia, sempre exposta às suscetibilidades da globalização.
A indústria gráfica tem percepção aguçada e é capaz de identificar rapidamente as tendências da economia como um todo: quando se produzem menos embalagens, notas fiscais, manuais técnicos de automóveis e de bens eletrônicos, cartões de crédito e livros — impressos que saem das gráficas para as distintas cadeias produtivas —, certamente há algo errado. E isso está ocorrendo neste momento.
A comunicação gráfica, conforme indicam as pesquisas e a sabedoria de mentes como a de Dines, não está ameaçada pelas novas mídias eletrônicas e a Internet. No Brasil, contudo, enfrenta os riscos a que hoje estão expostos todos os setores produtivos, que seriam muito menores se — mais do que 170 milhões de habitantes — tivéssemos de fato 170 milhões de pessoas exercitando as prerrogativas mínimas da cidadania, ou seja, um mercado mais sólido, no qual as mensagens da comunicação gráfica não fossem apenas sonhos impressos para grande contingente de brasileiros.

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mcesar@grafbandeirantes.com.brMário César de Camargo é diretor comercial da Gráfica Bandeirantes e presidente da Associação Brasileira da Indústria Gráfica

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