Portal da Propaganda www.portaldapropaganda.comOs empresários que ainda acreditam na produção como melhor alternativa para promover o desenvolvimento, a geração de rendas, de empregos e a melhoria do quadro social ficam estupefatos ao verificar que, sem outras opções de captar recursos para investimentos, precisam recorrer a um sistema financeiro cujos juros têm como parâmetro as generosas taxas pagas pelo governo na troca por títulos públicos.
Entre 1994 e 2002, a dívida externa aumentou de US$ 150 bilhões para US$ 240 bilhões. O estoque líquido da dívida pública saltou de 35% para 54% do PIB, desde o lançamento do Plano Real, em 1994, até o momento. O mais grave é que quase 30% da dívida federal está indexado ao dólar, o que estabelece vulnerabilidade à oscilação internacional do fluxo de capitais. Como conseqüência prática dessa frágil e desconfortável situação, estamos assistindo, neste exato momento, ao crescimento internacional do chamado “risco-Brasil”, simplesmente em função do calendário eleitoral do País.
É para financiar a dívida pública, interna e externa, que se paga juro tão alto com o fim de investir em produção e geração de empregos; é para financiar isso que se recolhem impostos tão onerosos e desproporcionais ao que se pratica no mundo civilizado. Ou alguém ignora que a arrecadação tributária no Brasil tenha crescido de 25% para 34% do PIB nacional, de 1993 a 2001? É verdade, por outro lado, que nos últimos sete anos a inflação jamais ultrapassou a casa de um dígito (o que, aliás, amplia o lucro de quem continua especulando com títulos em vez de produzir...) e que o Brasil, depois da China, é o país que mais tem recebido investimentos produtivos.
Esses dois aspectos, contudo, não se traduziram ainda em um processo sistemático de crescimento sustentado. Além disso, torna-se menor o número de investimentos de empresas brasileiras, cujo crédito é contaminado pelos juros mais altos do mundo, em comparação com os grandes grupos que trazem dólares, a juros baixíssimos, para investir aqui.
Para as empresas nacionais, porém, não há alternativa de sobrevivência (pelo menos com sua marca e gestão soberana) senão investir. E isto é uma aventura, que muitas vezes derruba todo um planejamento de produção, fluxo de pagamentos e administração racional. Não é sem razão que sérias e corajosas firmas brasileiras vão engrossando o já substantivo rol da inadimplência.
Há setores industriais que ousaram e investiram. A indústria gráfica brasileira é um exemplo: de 1996 a 2001, apresentou faturamento global de US$ 36 bilhões. No mesmo período, investiu US$ 3,7 bilhões, ou seja, mais de 10% do resultado bruto. Conclusão: foi um dos únicos segmentos que aumentaram o volume de postos de trabalho (cerca de 200 mil empregos, atualmente, distribuídos em 15 mil gráficas), e suas exportações, de 1995 a 2001, cresceram 150%. É bom ou não para o País o investimento produtivo?
A essa pergunta acrescenta-se outra, crucial: mesmo aos setores que, como a indústria gráfica, fizeram árdua lição de casa e conseguiram investir, será possível continuar alocando recursos em tecnologia de ponta e bens de capital? Os empresários não querem privilégios anacrônicos, nem incentivos fiscais. Desejam, apenas, deixar de financiar a dívida pública (via impostos e/ou juros escorchantes) com seu trabalho e o esforço de seus funcionários.
mcesar@grafbandeirantes.com.brMário César de Camargo é diretor comercial da Gráfica Bandeirantes e presidente da Associação Brasileira da Indústria Gráfica