Portal da Propaganda www.portaldapropaganda.comCom o falecimento, neste 15 de abril, do Senhor Avelar Vasconcelos, presidente da Associação Brasileira de Anunciantes de 1992 a 1996, e um dos mais respeitados executivos de anunciantes da indústria de comunicação no Brasil, com rica carreira repleta de momentos inesquecíveis nos setores do marketing, da propaganda e da promoção, decidimos reproduzir um artigo, aqui publicado a pedido de Washington Olivetto em 9 de dezembro de 2003, no qual um amigo tornava pública uma despedida honrosa e jubilosa de outro amigo, tomando-a como exemplo, em amplo sentido para todo um mercado.
Hoje, sabemos, este exemplo continua de pé. E também sabemos – como sempre eu o soube e seu amigo – ser esta a carta de despedida que o Senhor Avelar gostaria de ver aqui novamente publicada nesta data, tendo o leitor, por gentileza, o cuidado de nos momentos adequados do texto substituir o nome da companhia Nestlé por um universo muito mais grandioso, no qual habitam todas as crianças que nascem e morrem, todos os homens e mulheres que crescem e envelhecem, todos os que compram pela primeira vez e um dia deixaram de consumir, todos aqueles que amamos ou não e que um dia terão um adeus a dizer para alguém.
Meu amigo Avelar Vasconcelos parte para carreira solo depois de 35 anos de Nestlé. Me mandou este e-mail. Fiquei envaidecido e pedi a ele que autorizasse a sua publicação. Não para massagear mutuamente os nossos egos, mas porque isso reflete um tempo em que agências e anunciantes se respeitavam. Profissionais de marketing reconheciam méritos, profissionais de agência reconheciam falhas – ambos vibravam com as boas idéias e os grandes resultados. E toda a energia era gasta em função do trabalho de verdade. Sem quebras de taxas de um lado nem filmes ou anúncios fantasmas do outro.
Amigo Washington:
Finalmente chegou o dia. Foram mais de 35 anos dedicados à Nestlé, a única empresa em que trabalhei. Fato raro hoje em dia!
Após adiar minha saída três vezes por solicitação do Ivan, finalmente "penduro as chuteiras" amanhã, 28 de novembro. Penduro as chuteiras, não. Vou trocar de chuteira. Vou recomeçar minha vida. Vou respirar outros ares, vou colocar o que aprendi nesses longos anos à disposição de mais gente, seja fazendo consultoria, seja fazendo palestras, seja escrevendo.
E nesse momento importante da minha vida, do alto desses 35 anos descortino o horizonte em busca de algo e encontro... você! Um garoto terrível, "enfant terrible", irrequieto, curioso, alegre, brincalhão, inteligente, apaixonado e... criativo! O "W" que completava a DPZ, ou seja, a DPWZ. O "W" que virou W, um W brasileiro, um "W Brasil". Mas antes disso, antes de criar a "W", você criou comigo a "Chambourcy", sem falar na Yopa. Não sei quem é o pai ou quem é a mãe. Digamos que fizemos os dois papéis, tá bom assim?
É, Washington, foram anos memoráveis. A sua mente fértil a funcionar o tempo todo. A criar coisas até quando não eram "necessárias". E foi numa dessas "desnecessidades" que você me contou um novo comercial para o Chambinho por telefone, que por telefone aprovei, sem "necessidade", que só vi depois na querida moviola, que não "aprovei" formalmente, porque me limitei a abraçar toda a equipe que estava naquele porão de prontidão numa tremenda expectativa, foi uma dessas "desnecessidades", repito, que se tornou uma obra-prima da propaganda brasileira, o comercial do Chambinho, com o tema "Carinhoso". Esse comercial mudou a história do Chambinho no mercado: demos um salto em vendas, em penetração, em share. E veja que diziam que ele era muito "soft"! E por acaso coração não interessa às pessoas? Pobres "intelectuais" censores da propaganda! Tem coisa mais bonita e atraente de dizer que: "Meu coração bate feliz de te ver..."?
Pois é, e os comerciais foram se sucedendo com os lançamentos que não paravam. E veio o "Chamour", "Uma declaração de Amor", e veio o Bliss, "A bebida saudável", e veio o lançamento do flan com gatilho (lembra-se do ladrão algemado, mas que recebe do guarda que o prendeu uma colher do flan na sua boca?). E assim fomos criando uma personalidade para Chambourcy. Danone era razão, nutrição (cálcio, vitaminas, proteínas e sal mineral...). Chambourcy era coração, ternura, carinho, saudabilidade. E assim, com essas idéias "tolas", suaves, conquistamos o... coração dos brasileiros. De coração para coração. Parece até programa de alto-falante das cidadezinhas do interior da minha infância gostosamente nordestina!
Conquistar o coração dos brasileiros significava conquistarmos a liderança do mercado. E assim foi feito. Mas, para chegar a esse grande feito, houve muita dedicação, eu diria mesmo, muita paixão da sua parte. Total identificação com o nosso projeto, com a nossa "religião". Outros dirão que Chambourcy virou uma cachaça para nós.
Mas me lembro bem de três momentos especiais de atitudes suas de total mergulho no nosso negócio que me marcaram. Um momento foi quando discutíamos um comercial na DPZ (eram sempre lá nossa reuniões-saraus), com o Ivan comigo, e depois de muita conversa você me "convenceu". Voltando para casa, discutindo com o Ivan no meu famoso Dodge Dart Le Baron, eu dizia: "Ivan, não estou me sentindo bem com aquele comercial". Parecia que estava com o estômago embrulhado. Pois bem, no dia seguinte, logo cedo, você me telefona (ainda bem que não havia ainda e-mail, nesse caso) e diz: "Avelar, acho que aquela idéia não ficou legal, não é? Vamos começar de novo!" Esse era o Washington (que deve continuar sendo ainda). Em outra oportunidade, você já tinha me apresentado vários roteiros para uma simples promoção, mas que era a primeira em iogurtes, com um... coração de ouro. E não se chegava a uma solução. No fim de semana nos encontramos no Grande Hotel de Águas de São Pedro. E fomos passear no bosque. Para falar da... promoção. E finalmente lá, no meio daquelas árvores centenárias, encontramos a saída, que era um comercial com o Chacrinha (no caso o Ferrugem, imitando o Chacrinha). E foi um sucesso estrondoso. Assim trabalhava o Washington. E mais um momento. Dessa vez com a Yopa. Todos os nossos comerciais eram produzidos pelo Julinho Xavier, por sua indicação. Ele fazia parte da equipe. Era totalmente coração. Mas, para o lançamento do "Danky 21", você queria que eu utilizasse o Andrés. Você tentou me convencer. Trouxe um rolo dele. Vi. Terminei por "aprovar". Você rodou o comercial. Me mostrou já pronto. Fiquei frio. Como frio era o comercial. Frio mas bonito, plástico e bem feito. Como os móveis suecos. Mas cadê o coração, cadê o carinho, cadê a ternura? Mesmo assim, em homenagem a você, aprovei. E no dia seguinte... já se adivinha. Washington liga: "Avelar, vou fazer um outro comercial"! Agora era o Washington que homenageava o Avelar. Esse era o Washington, esse é você, Washington.
Bom, Washington, já escrevi demasiado. Agora vou respirar outros ares. Vou tentar dividir com mais gente o muito que aprendi nesses anos, inclusive esses momentos inesquecíveis com você. Vou fazer palestras, vou escrever.
Espero encontrá-lo por aí nessa nossa apesar de tudo gostosa paulicéia, para rememorarmos o passado, também, mas para perscrutarmos o futuro... certamente.
Um forte e cordial abraço,
Avelar
Washington Olivetto encerra:
"Só pude fazer um trabalho tão bom para a Nestlé devido às magníficas condições de trabalho que a DPZ me oferecia".
Pobres intelectuais censores da propaganda...
É, Washington, foram anos memoráveis. A sua mente fértil a funcionar o tempo todo. A criar coisas até quando não eram "necessárias". E foi uma dessas "desnecessidades" que você me contou um novo comercial para o Chambinho por telefone, que por telefone aprovei, sem "necessidade", que só vi depois na querida moviola, que não "aprovei" formalmente, porque me limitei a abraçar toda a equipe que estava naquele porão de prontidão numa tremenda expectativa, foi uma dessas "desnecessidades", repito, que se tornou uma obra-prima da propaganda brasileira, o comercial do Chambinho, com o tema "Carinhoso". Esse comercial mudou a história do Chambinho no mercado: demos um salto em vendas, em penetração, em share. E veja que diziam que ele era muito "soft"! E por acaso coração não interessa às pessoas? Pobres "intelectuais" censores da propaganda! Tem coisa mais bonita e atraente de dizer que: "Meu coração bate feliz de te ver..."?