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Comunicação

26/02/2010 00:31

SÓ MARIA MADALENA É FIEL?

Gisele Centenaro

“Em pesquisa realizada no final do ano pela Agnelo Pacheco com 420 mulheres das classes A e B, entre 20 e 35 anos, 74% dentre elas afirmaram já ter trocado de parceiro por falta de carinho, companheirismo e atenção. E não pensariam duas vezes em repetir o ato se o atual parceiro cometesse o mesmo erro”, afirma nota enviada pela imprensa pela agência, na qual o diretor de criação Maros Silveira, declara: “A mulher Amélia não existe mais. Hoje, quem não dá atenção à mulher que tem corre o risco de perdê-la. A fila anda!”. O foco do tema está associado ao lançamento da campanha criada para o lançamento da coleção Oásis, da Duloren, já na mídia impressa.

“A Duloren sempre valorizou a mulher em suas campanhas e acredita que a sensualidade é um ingrediente indispensável à mulher brasileira. Desta vez queremos chamar a atenção deles também. Afinal, as mulheres estão cada vez mais bonitas, sensuais e independentes, correm atrás do que querem”, ressalta Denise Areal, gerente de marketing e estilo da Duloren.

Cerca de 20 mil pontos de venda – de dar inveja, hein! – em todo o Brasil comercializam modelos da marca, com preços convidativos e design interessante. Dada a natureza do produto, pode-se inferir que a intenção de Duloren busca no mesmo prisma que uma marca como Cadolle, por exemplo, inspiração para dizer às mulheres que ao amarem a si mesmas, intimamente, estarão não apenas se autopreparando para serem amadas, mas também aprendendo a lidar com as diversas e fascinantes facetas do amor, uma delas dedicadas ao poder – que pode tender do grau mais áspero ao mais sedoso – da autoestima, assim como à tecitura da personalidade feminina – mais, menos resistente, mais, menos segura, mais, menos marcante, mais, menos conquistadora… depende, bem… e não depende também.

Qual a diferença entre o olhar de cada uma delas sobre o mercado e no modo como ambas são vistas pelos consumidores e prospects? Bem, a Duloren em solo nacional e a Cadolle, além dos champes de Paris, da França, da Europa, dos Estados Unidos…, embora a marca francesa nem sonhe com 2.000, eu diria, quanto mais 20.000 pontos de venda? Arrisco uma opinião bem pessoal ao responder à pergunta que eu mesma acabo de fazer: creio que se o objetivo fosse evidenciar a diferença entre ambas, a agência poderia se orgulhar de ter acertado em cheio ao escrever a frase “Só Jesus é fiel“ que aparece nas peças publicitárias.



Primeiro motivo: a Cadolle quer justamente aquela cliente cuja conta bancária – e de seus maridos, noivos, namorados e amantes – nada tem a ver com uma pessoa que saiba da existência da Duloren no mundo.



Segundo: se a Cadolle decidisse ter pra si também as clientes de Duloren, não se arriscaria a perder boa parte delas – as de almas mais delicadas – ao lançar mão de um slogan mais ao gosto de caminhoneiros que frequentemente somente associam o significado de “fidelidade“ aos torcedores corinthianos.



Terceiro: sob o mistério das rendas, realmente, nem tudo que parece é; homens e mulheres, em muitas ocasiões, gostam disso, de mistérios, de rendas, principalmente dos mistérios que aludem ao sexo e das rendas que exprimem o luxo; quanto mais homens e mulheres gostam disso, mais o sexo e as rendas preparados para consumo vêm embalados sob laços de mistérios e rendas, numa era em que a vontade do consumidor é soberana.



Quarto: bem, se cuecas e meias, no Brasil, têm sido usadas para melhor acomodar notas de dinheiro como comprovado por imagens gravadas sob quatro paredes, imaginem a que ponto não pode, de fato, chegar a criatividade tupiniquim ao enveredar pelas mil e uma utilidades que belas donas podem consagrar às suas lingeries… bem, mais, menos libertinas, mais, menos libertas, mais, menos libertadoras, mais, menos protegidas pelos véus das rendas, pelos véus de um Jesus qualquer, se necessário ou, simplesmente, gostoso for, e, até, por Ele mesmo, por que não?

De Maria Madalena para cá, mesmo Jesus Cristo tendo sido anunciado morto na cruz e ressuscitado dos mortos – não há quem duvide (há?) de que, de fato, Judas tenha entregue para o sacrifício o homem que mais amava na Terra, e que mais era amado por todos os discípulos que presenciaram a mais famosa cena de traição do mundo ocidental –, o que mudou, o que está mudando, no ideário mítico da humanidade sobre o papel da mulher e de suas rendas, de seus mistérios, de suas lingeries, bem, mais, menos Duloren, mais, menos Cadolle? Bem, só Judas não foi fiel quando na nossa roda de observação estão os Eleitos, mas fora dela… talvez, seja o contrário, talvez só Judas tenha sido fiel, seja fiel, mais, menos fiel, talvez só as Marias Madalenas sejam, de fato, fiéis, motivo pelos quais devam ser chamadas, pra não despertar cobiça, de Marias Madalenas… Ai, Cadolle.

Uma Cadolle, com certeza, não é uma Duloren. Uma Cadolle, com certeza, tem consumidoras – e consumidores – muitíssimo fiéis, inclusive aquele Jesus do qual não falávamos, mas… sim, entendemos muito bem, embora às vezes fingindo que não, inclusive quando preferimos, ao nos depararmos com o mau gosto, fingirmos que não entendemos as mais simplórias piadas de caminhoneiro. Entender pra quê, não é mesmo?

Duloren, mesmo não sendo uma Cadolle, se eu fosse você, ah! se eu fosse você, pensando naquele arrepio bom que vem do verso “pra você me guardei, demais, demais”, mesmo tendo vivido tantas histórias lá atrás, eu voltaria mais meu olhar pra minha verdadeira consumidora, não por pudor, mas por inteligência de mercado, pra não deixar que, sozinha, ela fique se perguntando “o que faço da vida? não sei mais procurar a alegria perdida”, resposta que outra marca pode rapidamente lhe dar para conquistar a fidelidade dela – pra sempre.

Além disso, bem, minha avó sempre me dizia que quem procura acha, está certo, mas, não só ela rasgaria esse cartaz por causa da cara de pamonha do rapaz sentado ao fundo, como também me daria uma lingerie ainda mais linda, bem Cadolle, feita sob medida (ai, que saudade!), cheia de rendas flutuantes e laços cintilantes, nas cores que eu mais quisesse, pagas com beijos de neta, bisneta, tataraneta, sei lá, onde isso vai dar, mas eu não me surpreenderia se Maria Madalena fosse da família, da ala das primas, da ala das titias, da ala das mamães… um arquétipo, que o seja… Who will know it? ¿Quién lo sabrá? Qui le saura? Chi lo saprà? Ποιος θα τον ξέρει;.

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Ah! se eu fosse você...Duloren, mesmo não sendo uma Cadolle, se eu fosse você, ah! se eu fosse você, pensando naquele arrepio bom que vem do verso “pra você me guardei, demais, demais”, mesmo tendo vivido tantas histórias lá atrás, eu voltaria mais meu olhar pra minha verdadeira consumidora, não por pudor, mas por inteligência de mercado, pra não deixar que, sozinha, ela fique se perguntando “o que faço da vida? não sei mais procurar a alegria perdida”, resposta que outra marca pode rapidamente lhe dar para conquistar a fidelidade dela – pra sempre.

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