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Comunicação

10/04/2006 23:31

Celebrar a maturidade é uma responsabilidade social

Gisele Centenaro

“Se fosse homem, tirava uma carta, comprava um caminhão e ia pra estrada. O caminhoneiro é um bon vivant, não tem patrão nem horário, dorme onde bem lhe apraz, seu teto é o céu cheio de estrelas...” Foi nessa imagem poética, vislumbrada num texto de Raquel de Queiroz (O rei dos caminhos), que o Sr. Henrique Lessa Fernandes se inspirou para colocar, como ele mesmo conta, “o pé na estrada”.

Por ironia do destino, ele era bancário, mas largou o emprego, comprou um caminhão e saiu em busca de aventuras, enquanto trabalhava, cruzando este enorme Brasil. E em cada parada aproveitava para escrever uma carta para os familiares em Portugal, onde Seu Fernandes nasceu e viveu até os quatro anos de idade, antes de fazer da nossa a sua pátria. O gosto pela literatura foi junto em suas andanças, até que, num belo dia, os patrícios lhe mandaram de volta suas cartas, arsenal de seu primeiro livro.

Nada deu certo, nem na carreira literária, nem na direção do caminhão. Quanto mais Seu Fernandes avançava por essas trilhas, mais distante se sentia do lirismo de Raquel de Queiroz. Rebelou-se, procurando-a para lhe dizer, pessoalmente, que, como caminhoneiro, nem tempo conseguia para olhar as estrelas no céu, fora a poeira das estradas que lhe embaçava a vista. Não a encontrou. O jeito foi, mais uma vez, escrever uma carta.

Quem poderia imaginar que, comovida, a escritora iria na empresa na qual Seu Fernandes trabalhava, voluntariamente, para conversar e dar início a uma longa amizade? Pois foi o que aconteceu. E, por mais incrível que pareça, também foi um banco que lhe abriu as portas para que ele obtivesse o que mais desejava: o reconhecimento pelo seu talento no universo literário. Em 1999, ele começou a participar do Concurso Banco Real de Talentos da Maturidade. Persistiu a cada nova edição e, finalmente, em 2003, seguindo um conselho de sua nobre amiga, inscreveu na competição o conto “Andante”, de seu autoria, que lhe outorgou a vitória na categoria Literatura. Felicidade que não pôde compartilhar com Raquel de Queiroz, pois sete dias antes de ser propalado como o ganhador do troféu, ela faleceu.

Hoje, Seu Fernandes tem 77 anos; quatro livros publicados; gosta de dizer que trocou as viagens de caminhão pelos aviões, ao cumprir a agenda de escritor convidado para participar de eventos, ministrar palestras, contar histórias. Transformou-se em garoto-propaganda do Banco Real, emociona-se sempre que se lembra de sua entrevista no Programa do Jô, bem como do momento em que viu sua foto num anúncio veiculado na revista Veja, e sorri muito quando dá o seu recado para outros cidadãos com 60 anos ou mais, que podem tomar parte na mesma competição: “É muito bom participar. Mas bom mesmo é ganhar!”

Seu Fernandes esteve nesta manhã de segunda-feira, 10 de abril, ao lado da Dona Helena Moretin, uma senhora de 72 anos, vencedora em 2005 na categoria Música Vocal, no evento promovido pelo Banco Real para divulgar o lançamento da oitava edição do Concurso Talentos da Maturidade, com inscrições gratuitas a partir do próximo dia 17 até 8 de setembro. A campanha de divulgação, criada pela Talent, entra em veiculação neste sábado, com comerciais, anúncios e ações de merchandising, que, no lugar do Seu Fernandes, vão apresentar ao Brasil uma nova estrela, a Dona Helena, assim como Seu Potyguara, vencedor de 2005 na categoria Artes Plásticas.

O público idoso tem, ainda, exclusividade na categoria Contador de Histórias, mas também pode ingressar na disputa através de outras duas categorias, estas abertas a pessoas de qualquer idade: Monografia (com nível superior completo ou em andamento) e Programas Exemplares (trabalhos direcionados à população idosa).

Em 1999, o prêmio registrou 5.000 inscrições. No ano passado, totalizou 21.109 e, segundo o coordenador Rodrigo Villaboim de Carvalho Franco (veja entrevista na TV Portal), o volume de inscritos deve ser ainda maior em 2006.

Para organizar e promover o concurso, o Banco Real vem investindo, anualmente, cerca de R$ 7 milhões, contabilizados como uma contribuição da iniciativa privada para incentivar e propagar a produção artística na terceira idade, ao lado de outros projetos da instituição que visam a construção de uma sociedade mais justa e sustentável, priorizando o respeito e a valorização da diversidade. Adotando essa filosofia como norte em todos os seus programas de responsabilidade social, o banco colocou o tema “Envelhecimento: conquista e desafio” sob debate no evento realizado, hoje, em São Paulo.

Mediada por Laura Machado, mestre em Psicologia Clínica, consultora e palestrante em diversas organizações nacionais e internacionais, a conferência compreendeu a troca de idéias entre Alexandre Kalache, chefe do Programa de Envelhecimento e Curso de Vida da Organização Mundial de Saúde; Ana Amélia Camarano, phD em Demografia, da equipe do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada; Laura Oltramare, superintendente de Educação e Desenvolvimento Sustentável do Banco Real; e Derico, saxofonista do Sexteto do Jô, membro do júri na categoria Música Vocal.

Segundo Laura Oltramare, estudos detectaram que, atualmente, 62% dos projetos sociais patrocinados pela iniciativa privada, no nosso país, são focados em crianças e adolescentes. O público idoso tem sido contemplado com 23% dos investimentos em empreendimentos dessa natureza, um índice bastante expressivo, mas apenas de dois anos para cá, pois, até, então, pouco se fazia para cuidar, proteger e beneficiar os cidadãos da terceira idade no Brasil, estimulando a integração social dessa faixa da população.

Dentre os diversos assuntos abordados – como os sérios problemas enfrentados pelas mulheres idosas cujas vidas foram totalmente dedicadas aos maridos e familiares, sem trabalho fora de casa e, conseqüentemente, sem benefícios financeiros que as amparem na velhice e na viuvez –, destacou-se a questão sobre o estereótipo enraizado no imaginário coletivo como representação das pessoas mais velhas: geralmente, senhores e senhoras de cabelos brancos, encurvados sobre si mesmos, necessitando do auxílio de bengalas, recostados num banco de praça, num canto isolado, ou seja, praticamente incapacitados para os relacionamentos sociais.

Entretanto, são idosos os donos de nomes conhecidíssimos no cenário nacional, como Jô Soares, Caetano Veloso, Chico Buarque, o próprio debatedor Kalache, mais um sem-número de personalidades de aplaudidos talentos, em plena atividade profissional. Como enfatizou Kalache, não parece, mas isto é, sim, preconceito, fruto de um estereótipo negativo que pode ser combatido por ações e programas intergeracionais, delineados para mudar esse olhar equivocado dos jovens direcionado aos mais velhos.

O Programa de Envelhecimento e Curso de Vida da Organização Mundial de Saúde, chefiado por Kalache, já arregaçou as mangas para também trabalhar nessa trilha, dando início a um concurso entre universitários para a criação de símbolos que associem a terceira idade com atributos positivos e que – parodiando o tema da campanha da Talent – celebrem a liberdade que a maturidade nos dá.

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Segundo Laura Oltramare, estudos detectaram que, atualmente, 62% dos projetos sociais patrocinados pela iniciativa privada, no nosso país, são focados em crianças e adolescentes. O público idoso tem sido contemplado com 23% dos investimentos em empreendimentos dessa natureza, um índice bastante expressivo, mas apenas de dois para cá, pois, até, então, pouco se fazia para cuidar, proteger e beneficiar os cidadãos da terceira idade no Brasil, estimulando a integração social dessa faixa da população.

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