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Canal Rafael Sampaio

19/02/2008 09:29

O ano que começou muito cedo

Rafael Sampaio

Brasileiro adora reclamar. Desde que me conheço como gente, profissionalmente falando, tenho reclamado que o ano demora a começar, que antes do carnaval nada acontece e com outras frases feitas que todo mundo conhece e repete religiosamente todos os anos. De algum tempo para cá, no entanto, isto não tem sido mais assim tão evidente e muita coisa vem rolando entre o réveillon e o carnaval. Só que a gente continuava reclamando... até 2008. De repente, com as festas momescas rolando logo no começo de fevereiro, eu e muita gente que conheço notamos como era bom o tal do ano que não começava, que dava tempo para colocar as coisas do período anterior em ordem e de fazer algum planejamento para o ano que iria começar depois dos desfiles das escolas de samba.

Em 2008, fomos atropelados por menos de um mês “normal” antes do carnaval. Os supermercados tiveram que encerrar as últimas promoções do estoque de panetones para dar lugar aos varais dos ovos de Páscoa, as férias de muita gente foram mais curtas que o esperado (e até necessário), a indústria do turismo de verão está chorando a curta temporada até agora. Tem gente que achou bom, é claro; alguns por razões estruturais, como os motoristas de táxi das grandes metrópoles longe do mar; outros por fatores circunstanciais, como os que estão procurando emprego e aqueles com um projeto a vender. Mas a maioria não gostou muito da novidade – que não acontece no ano que vem, pois o Carnaval volta a acontecer na última semana de fevereiro.

Na verdade, porém, a questão do carnaval no fundo é mais simbólica que real. Afinal, o verão não adota o estranho calendário da igreja Católica, que faz as festas religiosas – origem do carnaval, por mais estranho que pareça – oscilarem tanto. Da mesma forma, o “ano comercial” não está assim tão atrelado ao período de esbórnia institucional para a maioria (ou de retiro, para alguns), que em algumas cidades como Salvador ou Recife dura mais que uma semana e que no Rio de Janeiro representa o maior movimento anual de congregação de esforço popular da metrópole.

O ano vem começando mais cedo porque as coisas estão mais difíceis; a luta está mais dura; a competição é bem mais acirrada; nada mais se resolve tão facilmente; os custos estão mais altos e os preços de venda, mais baixos.

A estrutura da economia é mais complexa e aquele comportamento colonial de oito ou nove meses de trabalho efetivo, de modo a sobrar tempo para gastar os lucros na corte, está definitivamente liquidado. Vale ressaltar que esse estranho calendário funcionava apenas para as elites, evidentemente, mas que eram elas que davam o tom cultural e econômico do país. Em épocas áureas, sendo a última a do ciclo do café, a relação era de seis meses por aqui e seis meses em algum lugar mais civilizado...

A própria crescente influência das classes médias e pobres na economia altera de forma significativa esses hábitos, pois eles não têm renda ou capital para longos ócios e precisam cuidar da vida com mais constância que os mais ricos. E na medida em que o eixo do sucesso econômico da maioria das empresas desloca-se para o meio do mercado, quase tudo passa a ser diferente – inclusive o calendário da vida real.

Isso quer dizer que os anos irão começar cada vez mais cedo e que o período de alívio que nos restará em pouco tempo será o da semana entre Natal e Ano Novo. Até que as coisas sejam tão competitivas como no mundo anglo-saxão, no qual se trabalha até a tarde de 24 de dezembro e, no máximo, se tem uma saída antecipada ou uma festinha da empresa nesse dia; ou no qual 31 de dezembro é dia de trabalho normalíssimo, com direito a uma chuva de papel picado no final do expediente.

Deus nos livre disso!

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Razões estruturaisO ano vem começando mais cedo porque as coisas estão mais difíceis; a luta está mais dura; a competição é bem mais acirrada; nada mais se resolve tão facilmente; os custos estão mais altos e os preços de venda, mais baixos. (...) A própria crescente influência das classes médias e pobres na economia altera de forma significativa esses hábitos, pois eles não têm renda ou capital para longos ócios e precisam cuidar da vida com mais constância que os mais ricos. E na medida em que o eixo do sucesso econômico da maioria das empresas desloca-se para o meio do mercado, quase tudo passa a ser diferente – inclusive o calendário da vida real.

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